... depois de uma longa caminhada já em noite alta,
ao longe vi a luz que insistia em sair pela janela. Era frio e o cansaço já não
espreitava o caminho, se fazia junto. Hesitante aproximei-me. Naquele momento
todas as dúvidas de sempre se fizeram sentir. A tábua rude da porta conversava
com a aspereza da mão que sentia o medo em tocá-la. Podia
sentir o calor que aquecia o interior daquela casa. Mas ao mesmo tempo, a
história de muitos dias de intempéries resultavam em uma realidade muito viva.
Enquanto o corpo jazia na inconsciência do eu diante daquela porta, o vertigo
dos pensamentos paralisava qualquer
intenção. A soma dos "se(s)", a multiplicação de questionamentos
dividiu o ser em inúmeras partes, cada vez menores, mas não diminuiu em nenhum
momento a angústia do não perceber, o medo do poder sentir, o saber que a
esperança já não vagava nas fronteiras do eu. O sopro gélido da noite se fez
sentir, a mão não tocou a rudeza da porta. A luz continua saindo pela janela, o
calor recolheu-se em si mesmo. O passo estacou junto com o cansaço de si.
Somente o medo seguiu espreitando um coração na noite alta e fria. (trecho -
Ecos de mim – JC Pandolpho).