quarta-feira, 10 de setembro de 2025

BraZil: entre a tradição inventada e o futuro que não chega.

 Brasil: entre a tradição inventada e o futuro que não chega

O cenário político brasileiro revela um impasse estrutural. De um lado, a extrema direita busca mobilizar símbolos de um passado idealizado. Discursos de ordem, disciplina e prosperidade remetem a uma versão seletiva da história nacional, marcada mais por narrativas emocionais do que por fatos concretos. Esse revisionismo funciona como combustível identitário: ao reconstruir um “Brasil que nunca existiu”, oferece a ilusão de segurança e grandeza a uma população desgastada por crises sucessivas.

Do outro, a esquerda — que se apresenta como moderada, mas mantém práticas de controle social típicas de projetos mais radicais — aposta em políticas de transferência de renda e programas assistenciais. Embora importantes no combate imediato à fome e à miséria, esses mecanismos têm efeito limitado na mobilidade social. Na prática, reduzem a pobreza extrema, mas não oferecem meios consistentes para que indivíduos e famílias ascendam economicamente e se libertem da dependência estatal.

Esse embate resulta em uma polarização que pouco contribui para a superação dos problemas históricos. O Brasil permanece preso a um ciclo de narrativas: de um lado, mitos idealizados; de outro, paliativos que estabilizam a miséria. A consequência é uma sociedade que se mantém dividida, sem acesso a um projeto nacional que combine memória crítica, crescimento sustentável e verdadeira inclusão social.

Estruturas que resistem

A história política brasileira revela uma constante: embora os regimes tenham mudado ao longo dos séculos, as estruturas de poder se mantiveram praticamente intactas. Durante o período colonial, o poder esteve concentrado nas mãos dos senhores de engenho. No Império, a lógica se adaptou, mas preservou os privilégios das elites agrárias.

A Primeira República consolidou o domínio dos chamados “coronéis”, que, através do voto de cabresto, controlavam a vida política local e regional. No século XX, a Era Vargas, a República populista, a Ditadura Militar e, mais recentemente, a Nova República não romperam com esse padrão. O que prevalece é a ausência de um projeto de Estado.

Esse vazio se manifesta em políticas educacionais inconsistentes, ausência de planejamento de longo prazo e manutenção das desigualdades históricas. Mesmo em nível municipal, famílias tradicionais seguem exercendo poder de fato, em muitos casos sem ocupar cargos eletivos diretamente. A prática dos “currais eleitorais” sobreviveu à passagem dos séculos, adaptando-se às redes sociais, mas mantendo a essência do clientelismo.

A mediocridade como marca nacional

O Brasil entra no século XXI carregando os fardos de um passado quase provinciano. Estruturas herdadas da Colônia e do Império ainda ecoam em nossas instituições, enquanto o mundo avança em ritmo acelerado desde a Revolução Industrial até a quinta onda tecnológica — a inteligência artificial.

A verdade incômoda é que a média brasileira é baixa. Não no sentido estatístico, mas no sentido negativo da mediocridade. Uma massa de cidadãos incapazes de atingir o pleno desenvolvimento de suas capacidades, formada por escolas frágeis, mal informada pela mídia e entorpecida por narrativas fragmentadas.

Esse estado de letargia social se reflete na imagem alegórica de uma massa de pobres sustentando, com suas costas curvadas, a mesa do banquete das elites políticas e jurídicas. Enquanto poucos desfrutam de privilégios e recursos, muitos arcam com carga tributária elevada e serviços públicos insuficientes.

O desperdício das oportunidades

Apesar disso, o Brasil sempre teve recursos abundantes: terras férteis, biodiversidade única, petróleo do pré-sal, clima favorável e um povo criativo e multicultural. Faltou, porém, o essencial — um projeto de Estado capaz de atravessar governos e sobreviver às disputas partidárias.

O resultado é que, enquanto outras nações passaram por rupturas sociais profundas e se reinventaram — como França, Alemanha, Japão e Coreia do Sul —, o Brasil perdeu sucessivas janelas de oportunidade. Nossa pirâmide social continua intacta, e o topo, confortável, não tem incentivos para promover mudanças estruturais.

O ponto de inflexão que não chega

Nenhum país que hoje desfruta de estabilidade social chegou a esse ponto sem rupturas. O Brasil, no entanto, ainda não viveu seu verdadeiro ponto de inflexão. Não houve revolução vinda de cima, tampouco um movimento popular suficientemente articulado para alterar de forma consciente o modo de pensar e agir.

A pergunta central permanece: quem vai preparar as próximas gerações? Se a geração atual ainda é incapaz de enxergar a realidade com clareza, como transmitirá às seguintes um projeto de futuro?

Entre a poeira e a potência

O Brasil tem todos os elementos para ser potência, menos a capacidade de transformar potencial em realidade. O risco é repetir o ciclo da frustração: assistir à história passar enquanto permanecemos à margem, olhando para o futuro com a mesma nostalgia com que olhamos o passado.

Preparar as próximas gerações é o desafio imediato. Se não houver quem assuma essa tarefa agora, restará às crianças e jovens a responsabilidade de construir o país que não fomos capazes sequer de projetar.

 José Carlos Pandolpho - 10/09/2025 - Reflexões

Imagem gerada

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022



O valor extrínseco e intrínseco do trabalho.

 

Mídias sociais são estranhas.

Confundem a virtude com a virtualidade.

Há filtros para as imagens, para as palavras e para a

própria personalidade.

Muitos se jactam de um glamour que de fato não

existe.

São eufemismos variados para mascarar ou mesmo

esconder a distância entre os discursos que atendem aos anseios públicos e a realidade,

em muitos casos ainda provinciana das empresas nesse país.

A tecnologia mudou, os termos mudaram, mas a essência

das relações continua a mesma em muitíssimos casos.

Todos tem direito a um lugar ao sol. Alguns estão em

paradisíacas praias com seus drinks decorados com frutas frescas, coloridos

guarda-chuvinhas e com o inebriante álcool em sua essência, enquanto muitos

estão sendo esturricados sob esse, executando funções de caráter infra(alguma

coisa).

Notem o glamour de um teatro luxuoso onde um famoso

pianista deliciará aos ouvintes com sua técnica e magia. Todos reconhecem a

qualidade musical do instrumento e o dom do pianista (nem sempre o esforço e

anos de estudo).

Mas não haveria a apresentação e alguém não tivesse

carregado o piano até o palco.

Quantas mãos foram necessárias para que a plateia

tivesse aquela oportunidade?

Quanto do valor de cada entrada será distribuído para

os donos de esses braços?

Quanto vale a vida deles medida nas horas que se

dedicaram àquelas atividades?

Alguns dirão: “Se não fosse o concerto ninguém teria um trabalho”. Não se discute aqui a realidade social, mas sim a dinâmica do processo.

Sabe-se que é insustentável manter íntegro o tecido social numa sociedade tão desigual em suas diversas nuances.

Outro ouvi uma conversa que vazou da mesa vizinha num restaurante qualquer: "Você coloca mil reais aqui ou ali, compra umas coisinhas, para satisfazer um gosto".

Notem o significado de mil reais para essa pessoa. Não é relevante simplesmente porque mil reais não é mesmo relevante.

Mas quantos "vivem" com isso ou mesmo menos do que isso!

O pragmatismo que determina a renda de grande parte da população do país se relativisa quando trata do próprio estilo de vida de quem os aplica.

No final tudo se justifica. O valor de cada coisa dependerá da realidade de quem o atribui e não de quem lhes sofre as consequências.

Já que não me toca efetivamente e diretamente minha vida se o considere fora, extra, extrínsico à realidade especifíca de quem não vive a excrudência.

Totalmente intríseco para aqueles que carregam os pianos diários. Pior ainda será quando já nem isso puderem fazer.

Mas não tem problema pois nossa sociedade é prima por produzir poucos pianistas para os poucos teatros para seu exclusívo público e muitas, mas muitos braços para carregar pianos. Braços esses que substituem as hérnias que levaram os antigos. Mas isso só até eles serem totalmente dispensáveis.


Mas bolhas não duram para sempre.

 

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Que coisa!!!

Já mais perto do fim do que do começo e, depois de ter estudado e aprendido algo nesta vida, posso afirmar que uma coisa é uma coisa e que outra coisa é outra coisa.

Assim sendo, ainda que eu conheça muito sobre uma coisa e algo sobre a coisa mais similar à primeira coisa, sei que não tenho conhecimento suficiente sobre a coisa similar para poder versar com propriedade sobre ela.

Muito menos poderia falar sobre a outra coisa. Disso tudo decorre que, se você acredita conhecer algo sobre a coisa que lhe diz respeito, isso talvez lhe possibilite expressar a sua opinião, evidenciada sob o seu ponto de vista, a respeito do que você acha ou pensa sobre a sua coisa familiar.

Assim sendo, creio que seja contraproducente — para usar um eufemismo — cogitar sobre qualquer aspecto da outra coisa.

Caso tome conhecimento de comentários sobre coisa alheia, lembre-se de que você talvez não disponha de conhecimentos suficientes sobre essa outra coisa, invalidando, assim, que você emita juízo de valor sobre a coisa que lhe é alheia.

Face ao exposto, posso afirmar, sem sombra de dúvida, que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa e que abster-se de opiniar sobre a outra coisa denota uma inteligência aguçada e uma sabedoria que hoje está escassa em nossa sociedade.

Que coisa, não?!

José Carlos Pandolpho - 30-12-2021 - Rio de Janeiro - RJ - Brasil




domingo, 12 de maio de 2013

Dia das mães


Dos passos vacilantes a longa distância percorrida;

O escutar  da voz segura de encontro das vozes do mundo;

Do balbuciar das palavras primeiras aos asperos debates;

Dos rabiscos abstratos até a tradução do sentimento;

Do abraço sempre terno a indiferença dos outros;

Do olhar em oração a insana cegueira do estranhos;

Da segurança das mãos dadas as incertezas profundas;

Sempre um porto seguro aos velejadores incautos;

Farol que brilha, orienta àqueles lançados ao mar;

Desde do início mãe... até o infinito dos céus;

Desde sempre querida pelos filhos teus.

Sempre insuperável em sua capacidade de amar;

 

Feliz dia das mães – dona Maria Rosa!
12-05-2013

quinta-feira, 13 de setembro de 2012


... depois de uma longa caminhada já em noite alta, ao longe vi a luz que insistia em sair pela janela. Era frio e o cansaço já não espreitava o caminho, se fazia junto. Hesitante aproximei-me. Naquele momento todas as dúvidas de sempre se fizeram sentir. A tábua rude da porta conversava com a aspereza da mão que sentia o medo em tocá-la. Podia sentir o calor que aquecia o interior daquela casa. Mas ao mesmo tempo, a história de muitos dias de intempéries resultavam em uma realidade muito viva. Enquanto o corpo jazia na inconsciência do eu diante daquela porta, o vertigo dos  pensamentos paralisava qualquer intenção. A soma dos "se(s)", a multiplicação de questionamentos dividiu o ser em inúmeras partes, cada vez menores, mas não diminuiu em nenhum momento a angústia do não perceber, o medo do poder sentir, o saber que a esperança já não vagava nas fronteiras do eu. O sopro gélido da noite se fez sentir, a mão não tocou a rudeza da porta. A luz continua saindo pela janela, o calor recolheu-se em si mesmo. O passo estacou junto com o cansaço de si. Somente o medo seguiu espreitando um coração na noite alta e fria. (trecho - Ecos de mim – JC Pandolpho).

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Encontros

Encontros

Momentos há em que percebemos, mesmo que apenas nesses fugazes momentos, que a vida é uma sequência destes.

E vivê-los, cada um a seu tempo, sem os ranços do passado e a ansiedade pelo porvir, parece ser a melhor forma de fazê-lo.

Entretanto, quase sempre dispendemos de uma longa sequência de momentos de vida para lograr compreender a simplicidade dos mecanismos desse processo. E, ainda quando nos precatamos da possível veracidade dessa óbvia realidade, conseguimos tropeçar em nossas equivocadas perguntas e nos deixamos atropelar pela velocidade dos desejos que tentamos realizar - mesmo os mais fantasiosos - à custa de deixar-se para realmente viver um pouquinho depois. E o depois pode não chegar a ser, vir ou existir.

Sacrificam-se constantemente milhares de possibilidades em prol de uma escolha; uma infinidade de factíveis experiências em favor de uma decisão. Um simples desvio de olhar pode representar não ver alguém que quiçá fosse relevante e até mesmo necessário em nossas existências, retardando um crescimento pessoal tão necessário. Não obstante, apesar de nossa insuficiente compreensão de Tudo o que nos envolve, nada ocorre por conta do acaso. Mesmo que nos esforcemos em nos esquivar de algumas situações na vida, há experiências das quais não podemos e não conseguiremos nos furtar e, uma mera tentativa de fazê-lo, trará consigo um sofrimento que não se fazia necessário.

Menos mal que os grandes projetos da humanidade não recaem sobre muitos e, na maioria das vezes, as consequências de nossos atos ou da falta deles, influem para bem ou para mal, em grupo relativamente reduzido de pessoas, que normalmente configuram nosso círculo de pessoas mais prezado. Observando-se esse fato, nota-se o quão importante e significativo pode vir a ser, para bem ou para mal, nossa forma de observar, imaginar, entender e, principalmente, atuar no mundo. Quantas vezes um sorriso pode ter resgatado alguém de um momento em que a tristeza estava em vias de dominá-lo? Quantas vezes empurramos com um simples olhar alguém que estava a beira de seu abismo pessoal? Como poderemos auxiliar ao nosso semelhante –semelhante em imperfeições e virtudes – a tornarem-se e a tornar-nos seres melhores a cada dia?

Complexas e abrangentes questões que, talvez, encontrem suas respostas na simplicidade de um coração isento dos desejos supérfluos de um mundo onde o descartável dita a ordem do momento. Talvez aquela visita tão postergada àquele amig@ que há tempos não se vê? Talvez Um telefonema para dizer apenas um olá. Porém, tudo está tão corrido, tão difícil, tão conturbado ante os inúmeros e “importantes” afazeres aos quais nos submetemos a diário. Temo o fim do dia e o momento de solidão na noite, quando sozinho com os pensamentos de ontem, hoje e de amanhã, levanta-se imperiosa e soberba a dúvida sobre o significado dessa forma de existir: Valerá a pena tudo isso?

Mas logo um novo alvorecer proporciona outra vez o imerecido direito de eleger-se outra opção e, vamos nós outra vez embarcar nesse insano carrossel de onde pedimos com insistência para descer! Compreender a natureza humana? Talvez seja uma pretensiosa aspiração que cabe somente a uns poucos iluminados. Esses sim, talvez encontrem um significado mais consistente para suas próprias existências, muito embora isso não implique que consigam realizar aquela visita, fazer aquele telefonema. Talvez o encontremos em uma última homenagem a um amigo em comum...

Devaneios, abstrações, fantasias? Espero que não. Se, assim como penso ser, a vida seja constituída de momentos, espero que mesmo que esporadicamente, possa eu viver em utopia alguns deles, e possa vir a ser melhor que no tempo anterior. Dia desses, num momento desses, vivi um momento lúdico. Foi quando te encontrei recentemente. Havia um sorriso sincero em seus lábios. Depois vieram as palavras, que contaram sobre o ontem, versaram sobre o hoje e divagaram sobre um amanhã. Um rico vocabulário pode descrever por meio de palavras simples ou eruditas os fatos ocorridos nesse dia. Entretanto, não alcançariam e não poderiam expressar o que se pode apenas sentir. Entre a sensação de ser recebido com sincera alegria e uma infinidade de palavras, fico eu com a primeira, fico eu com teu sorriso.

Amplexos.

 

08-10-2008





sábado, 7 de maio de 2011

Caminhando no vazio

O tempo parou por dentro.
Já ninguém nas ruas observa meus passos.
Folhas secas destinadas ao vento.
Passeio o olhar sobre o tempo manchado nas paredes de sempre.
Velhas arvores alcançam o alto com seus braços envoltos no verde do simbiota.
Oculto entre as grises núvens, o azul do céu espia o vazio levado pelas mãos do transeunte.
Na tarde surda do insipiente inverno apenas se sente um coração que segue.
Pétreo e inerte, o pensamento já não evolui. Limitado à massa orgânica que o gerou (será?).
Palavras recrudecem na ante-sala da dúvida. Não serão pronunciadas. Seriam apenas ecos.
Carece a importância dada as coisas grandes e pequenas.
O lugar comum encheu a volta do ponteiro.
Os sonhos alheios evanescem o sono próprio.
Sobre a mesa o pó se acumula indemne.
No papel a noticia perdeu a cor.
Do ontem registra-se a névoa que envolveu as possibilidades.
Do momento, a expectativa do próximo movimento do ponteiro.
Do futuro, a visita do sol sobre o verde que envolve braços.
Da alma, a evolução daquele pensamento preso.
De todos, nova tinta sobre as manchas do tempo nas paredes de nós.
De mim, novo destino para as folhas secas levadas.
Surdo o coração segue.
Manhã cinzenta de abril.
Passos, folhas e saudade.