segunda-feira, 20 de junho de 2011

Encontros

Encontros

Momentos há em que percebemos, mesmo que apenas nesses fugazes momentos, que a vida é uma sequência destes.

E vivê-los, cada um a seu tempo, sem os ranços do passado e a ansiedade pelo porvir, parece ser a melhor forma de fazê-lo.

Entretanto, quase sempre dispendemos de uma longa sequência de momentos de vida para lograr compreender a simplicidade dos mecanismos desse processo. E, ainda quando nos precatamos da possível veracidade dessa óbvia realidade, conseguimos tropeçar em nossas equivocadas perguntas e nos deixamos atropelar pela velocidade dos desejos que tentamos realizar - mesmo os mais fantasiosos - à custa de deixar-se para realmente viver um pouquinho depois. E o depois pode não chegar a ser, vir ou existir.

Sacrificam-se constantemente milhares de possibilidades em prol de uma escolha; uma infinidade de factíveis experiências em favor de uma decisão. Um simples desvio de olhar pode representar não ver alguém que quiçá fosse relevante e até mesmo necessário em nossas existências, retardando um crescimento pessoal tão necessário. Não obstante, apesar de nossa insuficiente compreensão de Tudo o que nos envolve, nada ocorre por conta do acaso. Mesmo que nos esforcemos em nos esquivar de algumas situações na vida, há experiências das quais não podemos e não conseguiremos nos furtar e, uma mera tentativa de fazê-lo, trará consigo um sofrimento que não se fazia necessário.

Menos mal que os grandes projetos da humanidade não recaem sobre muitos e, na maioria das vezes, as consequências de nossos atos ou da falta deles, influem para bem ou para mal, em grupo relativamente reduzido de pessoas, que normalmente configuram nosso círculo de pessoas mais prezado. Observando-se esse fato, nota-se o quão importante e significativo pode vir a ser, para bem ou para mal, nossa forma de observar, imaginar, entender e, principalmente, atuar no mundo. Quantas vezes um sorriso pode ter resgatado alguém de um momento em que a tristeza estava em vias de dominá-lo? Quantas vezes empurramos com um simples olhar alguém que estava a beira de seu abismo pessoal? Como poderemos auxiliar ao nosso semelhante –semelhante em imperfeições e virtudes – a tornarem-se e a tornar-nos seres melhores a cada dia?

Complexas e abrangentes questões que, talvez, encontrem suas respostas na simplicidade de um coração isento dos desejos supérfluos de um mundo onde o descartável dita a ordem do momento. Talvez aquela visita tão postergada àquele amig@ que há tempos não se vê? Talvez Um telefonema para dizer apenas um olá. Porém, tudo está tão corrido, tão difícil, tão conturbado ante os inúmeros e “importantes” afazeres aos quais nos submetemos a diário. Temo o fim do dia e o momento de solidão na noite, quando sozinho com os pensamentos de ontem, hoje e de amanhã, levanta-se imperiosa e soberba a dúvida sobre o significado dessa forma de existir: Valerá a pena tudo isso?

Mas logo um novo alvorecer proporciona outra vez o imerecido direito de eleger-se outra opção e, vamos nós outra vez embarcar nesse insano carrossel de onde pedimos com insistência para descer! Compreender a natureza humana? Talvez seja uma pretensiosa aspiração que cabe somente a uns poucos iluminados. Esses sim, talvez encontrem um significado mais consistente para suas próprias existências, muito embora isso não implique que consigam realizar aquela visita, fazer aquele telefonema. Talvez o encontremos em uma última homenagem a um amigo em comum...

Devaneios, abstrações, fantasias? Espero que não. Se, assim como penso ser, a vida seja constituída de momentos, espero que mesmo que esporadicamente, possa eu viver em utopia alguns deles, e possa vir a ser melhor que no tempo anterior. Dia desses, num momento desses, vivi um momento lúdico. Foi quando te encontrei recentemente. Havia um sorriso sincero em seus lábios. Depois vieram as palavras, que contaram sobre o ontem, versaram sobre o hoje e divagaram sobre um amanhã. Um rico vocabulário pode descrever por meio de palavras simples ou eruditas os fatos ocorridos nesse dia. Entretanto, não alcançariam e não poderiam expressar o que se pode apenas sentir. Entre a sensação de ser recebido com sincera alegria e uma infinidade de palavras, fico eu com a primeira, fico eu com teu sorriso.

Amplexos.

 

08-10-2008





sábado, 7 de maio de 2011

Caminhando no vazio

O tempo parou por dentro.
Já ninguém nas ruas observa meus passos.
Folhas secas destinadas ao vento.
Passeio o olhar sobre o tempo manchado nas paredes de sempre.
Velhas arvores alcançam o alto com seus braços envoltos no verde do simbiota.
Oculto entre as grises núvens, o azul do céu espia o vazio levado pelas mãos do transeunte.
Na tarde surda do insipiente inverno apenas se sente um coração que segue.
Pétreo e inerte, o pensamento já não evolui. Limitado à massa orgânica que o gerou (será?).
Palavras recrudecem na ante-sala da dúvida. Não serão pronunciadas. Seriam apenas ecos.
Carece a importância dada as coisas grandes e pequenas.
O lugar comum encheu a volta do ponteiro.
Os sonhos alheios evanescem o sono próprio.
Sobre a mesa o pó se acumula indemne.
No papel a noticia perdeu a cor.
Do ontem registra-se a névoa que envolveu as possibilidades.
Do momento, a expectativa do próximo movimento do ponteiro.
Do futuro, a visita do sol sobre o verde que envolve braços.
Da alma, a evolução daquele pensamento preso.
De todos, nova tinta sobre as manchas do tempo nas paredes de nós.
De mim, novo destino para as folhas secas levadas.
Surdo o coração segue.
Manhã cinzenta de abril.
Passos, folhas e saudade.