domingo, 5 de dezembro de 2010

Com novas cores


Antes do horário de sempre, ainda com o aroma da noite que suavemente deixava seu lugar para um dia mais, eu abri a porta e me presenteei com os ares de uma nova manhã. No céu tímidas estrelas perdiam seu brilho, ofuscadas pela aurora que se fazia mais e mais presente. O silencio a minha volta me devolvia a calma que há tempos eu não percebia. O cachorro me observou sem maiores movimentos, não se levantou e cerrou os olhos outra vez. Fiquei observando a rua vazia, ouvindo o farfalhar das arvores, e sentindo na pele a suave brisa da madrugada. A grama molhou meus pés descalços e eu me vi menino outra vez. Tudo era tão simples, poucas coisas já bastavam e os dias passavam com as glorias da imaginação e a s vitórias conquistadas nas brincadeiras que compunham o tempo. O tempo, essa conjectura, que nos domina quando adultos, não tinha tanta importância e não causava problemas. No máximo a impaciência pela chegada de uma ou outra data especial. A impaciência pela realização de um sonho. Sonhos simples resumidos a algumas formas em plástico com rodas ou algo assim, apenas pretextos para as viagens que fazíamos nos caminhos de nossos mundos encantados. Recordei então sons, formas, cores, rostos que me acompanharam por aqueles dias. Senti na alma tão vivos sentimentos e pessoas que deixaram partes de si para eu construir aquilo que sou hoje. Nesse momento, meus olhos se irmanaram com as folhas das arvores, aquelas recobertas pelo orvalho da noite, estes com as lágrimas das lembranças de um tempo bom, quando tudo era simples e o amor mais presente. Como filtros disformes, as lágrimas fizeram surgir para mim, uma composição tão impressionista como um quadro de Monet. Percebi então, na imprecisão das formas e na fusão das muitas cores, uma beleza rara e uma simplicidade tão grandes que me senti livre outra vez. Por um momento muito breve, tudo se fez muito claro. Por um momento apenas, as correntes que nos prendem e o gesso que nos paralisa deixaram de envolver minha alma e minha mente. Me senti forte, capaz de tudo, senhor de meus caminhos, de minhas palavras e de meu querer. Breve foi esse momento. As lágrimas secaram, e um céu avermelhado surgiu. Mas pelo menos pude recordar depois que nada ficou para trás. Está tudo dentro de nós, basta com que tenhamos a coragem de passear pelos corredores de nossa memória e observar nas paredes de nossa historia os quadros que pintamos enquanto ainda vivemos. E notar que para mudar nossas vidas, basta com que pintemos nossas realizações com novas cores.

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